sábado, 9 de outubro de 2010

Vender a Alma

Está história é baseada em factos fictícios.


A - Vendi a alma.

B - Também me perguntaram se a queria vender. Vendeste por quanto?

A - Ainda foi algum dinheiro, fiz um bom negócio. Estou seguro que tomei a decisão certa.

B - Mas ainda podes voltar atrás, agora. Tens a certeza disso?

A - Claro que tenho. Já viste no que tenho em frente agora?

B - Sim, mas estás disposto a perder a tua essência por isso?

A - Estou. Agora é a decisão mais adequeada a tomar e é o caminho mais correcto. Não me vejo de outra forma.

B - E como é que te sentes?

A - Normal. Mais rico, mais livre. Vende a tua também.

B - Não, não tem preço.

A - A minha também não, mas eu tive que o definir.

B - Mas és feliz assim?

A - Agora sou.

B - Essa felicidade vai ser efémera.

A - O que me interessa é o agora.

Um sorriso malicioso percorria-lhe todo o rosto enquanto proferia estas palavras.

Não foi capaz de dizer mais nada. Virou-lhe as costas pela primeira vez e julgou ser feliz. Ele tinha muito que viver, e ela que o deixasse em paz.

Ela caiu, á medida que ele lhe virava as costas, e lá ficou durante toda a noite. Lentamente, foi ganhando forças e subiu.

Passado alguns anos, as mesmas pessoas reencontraram-se. Tinham ficado anos sem saber nada uma da outra.

B - Então, ainda és feliz?

A - Não. E tu?

B - Faço por isso.

A - Não te queria dar o gozo de dizer que tinhas razão.

B - Razão em quê?

A - Que me ia arrepender de me ter vendido. Queria poder voltar atrás. Queria-me ter apercebido que no dia em que vendi a minha alma, vendi também a minha felicidade, e deixei-a ir-se embora. Agora é tarde. Nunca vou ser feliz. Tu podias-me ajudar a tentar recupera-la. Sabes que és a única pessoa capaz disso.

B - Tu vendeste-a. Puseste-lhe um preço alto demais, é impossível.

A - Não é, eu sei que tu me consegues ajudar.

B - Como tu me ajudaste a mim quando te vendeste?

A - Desculpa.

B - Eu desculpo, mas o preço que tens que pagar é este mesmo. É viver o resto da tua vida sabendo que te vendeste, e que meteste um preço na tua felicidade, que erraste. E aí, nem eu te posso ajudar.


Ele deixou cair uma lágrima lentamente enquanto as palavras que ela proferia lhe ecoavam pela mente.

Não foi capaz de dizer mais nada. Virou-lhe as costas como tantas outras vezes e continuou a ser miserável. Ele não a merecia e o melhor que tinha a fazer era deixa-la em paz.

Ela permaneceu estática, á medida que ele lhe virava as costas.

Pela primeira vez julgou ser mais livre e feliz do que qualquer outro ser.


Terça-Feira, Dez de Agosto de 2010

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