quinta-feira, 24 de março de 2011

O que é que precisamente torna os lugares de hoje tão diferentes e apelativos?



Nos anos 60, surge um movimento artístico que muda a arte radicalmente no pensamento e na forma.

Influenciada não só pelas recolhas dadaistas e surrealistas de Robert Motherwell, mas também pelos ready-mades de Duchamp e pelas collages de Kurt Schitters, a Pop Art virou-se para a vida concreta e para os acontecimentos do quotidiano, como podemos observar no quadro ao lado, de Richard Hamilton, que utiliza estes elementos como uma forma de conhecimento e acção.

Este movimento artístico caracteriza uma sociedade consumista, estimulada por uma publicidade agressiva. Podemos observar isso neste quadro, pois conseguimos facilmente notar a presença de certos objectos, tais como a televisão, o jornal, o rádio, o emblema da marca de carros FORD, e até um aspirador com uma pequena nota publicitária: “ Aspiradores normais só chegam até aqui”, exagerando e ironizando a massiva publicidade que se estava a formar na época.

A Pop Art, surge então, como reflexo de novas formas de relacionamento social, onde determinados objectos e imagens se impõem como ícones, ás vezes usados até para causar exaustão ao observador. Neste caso, podemos observar que atrás da janela representada neste quadro, existe um cinema, onde está em exibição o primeiro filme falado elaborado até á data (note-se que esta invenção moveu massas até ao cinema). É também evidente a banda desenhada que está exposta como um quadro na parede, á qual vários artistas da Pop Art faziam referência.

A colagem de Hamilton foi inicialmente concebida como um cartaz, e ilustração do catalogo para a exposição de 1956 do Independent Group, This is Tomorrow. A questão colocada por o artista, tinha uma resposta imediata, quando colocada ao observador: hoje as casas são diferentes e atractivas porque as tecnologias recentes (cinema sonoro, televisão, e gravadores de som), vieram oferecer um refúgio dentro e fora de casa, enquanto artigos de utilidade domestica, como aspiradores e o fiambre de conserva. O casal que ocupa este lar parece tão deslumbrante e bem concebido como os objectos que o rodeiam.

Richard Hamilton utilizou uma linguagem figurativa, recorrendo a símbolos, figuras e objectos próprios da cidade e do seu quotidiano, como é visível neste quadro: o homem musculado e a pin-up girl, que representavam não só o ideal masculino e feminino da época, mas eram também considerados e tratados como um produto de consumo, e não como pessoas, daí serem usados por Hamilton, como uma ironia a esta situação. A atitude de confiança masculina aumenta para dominar o espaço de maior amplitude, enquanto que a figura feminina, elegante, mas de formas generosas, adorna o sofá particularmente grande, que lhe serve de pedestal. Juntos, constituem os componentes mais atraentes e cómicos numa composição carregada de símbolos e ícones planeados para prender a nossa atenção e transmitir uma mensagem simples.

Como é fácil perceber, a Pop Art em geral, não se baseou em teorias e não teve atitudes pragmáticas, não colocando assim, dificuldades interpretativas.

A temática de Richard Hamilton está directamente ligada á cultura popular, não só para o consumismo em si, mas está também indirectamente ligada á moda e á arte, como é claro através desta obra no quadro e no tapete, e é constituída por imagens do quotidiano, recorrendo este muitas vezes as técnicas de collage e serigrafia, como podemos observar nesta sua obra.

Analisando esta obra, podemos até afirmar que Hamilton faz uma descontextualização dos objectos, em relação ao quotidiano, tornando-os ícones da sociedade de consumo. É, portanto uma critica irónica a propósito do bombardeamento da sociedade pelos objectos de consumo, muitas vezes estes, personificados.

Hamilton, tal como todos os artistas da Pop Art, usava cores vivas, brilhantes e vibrantes nas suas obras, como podemos observar em algumas partes desta obra, como por exemplo o sofá. Tratava o quotidiano com impessoalidade, fazendo deste quadro uma obra quase que hiper-real. Em suma, um mundo de fantasia consumista, disponível pelo preço certo, prometia a evasão da vida penosa do período pós-guerra na Grã-Bretanha.

Com esta obra, Hamilton sugeria que o domínio dos meios de comunicação de massas, era não só merecedor de inclusão nas mais elevadas esferas da cultura ocidental, mas também que as distinções culturais tradicionais (entre o alto e o baixo, o elitista e o democrático, o único e o múltiplo), podiam ser vestígio de um ideal estético mais velho, e agora obsoleto. A sua utilização quase inexpressiva destes anúncios era ao mesmo tempo irónica e sincera, pois é conferida a obra uma certa dualidade.

O artista Pop Art, estava perfeitamente consciente que as rápidas mutações no estilo e no mercado pós-guerra foram cuidadosamente manipuladas através da publicidade. E usando de uma maneira tão óbvia estes anúncios publicitários na sua colagem, ele atraia a atenção, quer para as correntes de moda, quer para o vasto público cujo acesso mais imediato á cultura visual se processava através de revistas populares e não através de museus e galerias.

Esta oscilação constante entre publicidade e arte permitia a Hamilton recordar a todos aqueles que viam os seus trabalhos que a arte moderna celebrava com frequência o prazer físico.

Hamilton tornava público que a arte podia oferecer prazeres tangíveis, e ate mesmo comuns. Essencialmente o impacto visual de O que é que precisamente? Deve tanto á arte moderna anterior como o Futurismo e o Dadaísmo, como ao então contemporâneo, design comercial.

A rica complexidade do cartaz não era senão o indício de uma sensibilidade artística emergente, que marcou significativamente a cultura visual da arte ocidental nas décadas seguintes.

Afinal, o que pode ser mais apelativo?


Ana Junça


P.S. - Nunca recebi a nota deste trabalho. Mas gostava.




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